segunda-feira, 11 de junho de 2012


SOBRE O PASSAR DO TEMPO E AS MUDANÇAS NA VIDA

No último feriado de Corpus Christi viajei para Cataguases, minha terra natal em Minas Gerais, para visitar meus pais. Cataguases deixou de ser meu lar doce lar há muitos anos, mas como meus pais ainda moram lá, vez por outra, principalmente nos feriados prolongados visito-os, pois já estou fora de casa há quase 23 anos e nesse período muita coisa mudou. De lá para cá meus pais ganharam mais rugas, a pele ficou mais flácida e murcha, os fios brancos em seus cabelos aumentaram e a mobilidade ficou mais reduzida. O viço da vida vai aos poucos se desvanecendo e até o brilho de seus olhos ficou mais opaco. É interessante observar a ação cruel do tempo, ainda que a gente saiba que as coisas sejam assim mesmo, embora seja difícil aceitar tais transformações impostas de forma tão radical e irreversível. A fórmula da vida aqui na terra é assim, e não há nada que possamos fazer pra alterá-la, senão aceitá-la e vivê-la tal como nos foi concebida.

 Interessante que não são somente as pessoas que o tempo muda, mas também os lugares, os costumes, os hábitos, o modo de pensar, a visão de vida, de mundo, as crenças, os princípios, os valores, a ética e tantas outras coisas que outrora quando éramos jovens tinham outra definição, outra razão de ser. Hoje, toda a concepção que um dia norteou minha vida, se reduziu a um punhado de coisas questionáveis, diante das vicissitudes filosóficas que extrapolam meu ser.

E eu também mudei. Lembro que meus ideais de vida há vinte anos eram completamente diferentes dos que tenho hoje. Somos criados de acordo com o que rege nossa cultura, nossas tradições, valores e princípios morais e éticos; mas um dia tudo isso começa a ser questionado. Não que tais coisas estivessem erradas ou merecessem uma reconsideração, mas talvez porque sabemos que na vida nada é essencialmente estático, tudo muda, passa, transforma... as pessoas, as coisas, o ambiente, os valores éticos e morais, os princípios que norteiam nosso senso de certo e errado, nossa crença em nós mesmos, nossa capacidade de adaptação às mudanças drásticas às quais somos submetidos enquanto o mundo gira e faz girar também a roda da vida.

Não sei dizer ao certo se com o passar do tempo me tornei uma pessoa melhor ou não. Dizem que as experiências da vida nos moldam e nos tornam pessoas melhores, como diamantes brutos que foram lapidados até adquirirem a bela forma que possuem, ou como o fogo que derrete o aço na fornalha e o molda em outros objetos. Metaforicamente ou não, a vida é um contínuo processo de transformação em cada um de nós. Talvez seja uma centelha da qual mal nos apercebemos, mas com o passar dos anos é possível que tenhamos a clareza das coisas, ao ver que tal centelha na verdade era parte dos respingos da imensa fornalha que forja a vida, que nos moldou conforme cada situação adversa que tenhamos enfrentado ao longo de nossa jornada como seres em processo de transformação. Hoje me pergunto se fui moldado a um “formato” condizente com o que deveria ser ou se ainda estou em processo de modelagem. Percebo que a ação de moldar não cabe a mim mesmo, embora parte dela tenha um pouco da minha influência pessoal, através dos meus esforços em me tornar aquilo que gostaria de ser ou de ter para mim mesmo. Além dos meus esforços pessoais, existe uma força motriz que conduz e move tudo, que poderia ser Deus ou mesmo a própria vida, ainda que a própria vida pudesse ser Deus ou vice-versa nesse instante de arrazoar.

O fato é que tudo muda. Tais mudanças são inerentes à nossa vontade e colocam-nos todos no mesmo barco, indiferente de credo, raça, posição social, status ou filosofia de vida. Ainda acredito estar no centro da fornalha, sendo forjado aos poucos, quase que como em gotas homeopáticas. Talvez para não sentir a dramaticidade da mudança caso ela se desse de modo abrupto, ou talvez para ir me adaptando pouco a pouco às mudanças de forma mais sutil, sem que as mesmas não deixassem impregnadas em mim as cicatrizes mais profundas, como quando enfrentamos a morte de algum ente querido ou quando passamos por grandes tribulações e provações na vida. O certo é que tudo colabora para o nosso bem, mesmo que não tenhamos a devida percepção das coisas naquele momento. Mas um dia haveremos de ter.

Dizem que antigamente o tempo passava mais devagar, que um ano levava muito mais que 365 dias; hoje se fala em falta de tempo para quase tudo. É um corre-corre para dar conta das mil e uma atividades do dia-a-dia e mesmo assim 24 horas parecem não ser suficientes. Quando eu era pequeno o tempo tinha uma dimensão bem diferente, um ano inteiro custava muito para passar, e o natal do ano seguinte parecia nunca chegar. Não sei se era devido ao fato de não haver preocupações com contas a pagar, ou se era por causa do ócio que alimentava a mente fértil e imaginativa, mas o fato era que o tempo demorava bem mais para passar, até mesmo os dias eram mais longos, o que na verdade era muito bom, pois havia tempo de sobra para inventar muitas brincadeiras.

Tudo começou a mudar quando entrei para a escola. O tempo antes dedicado essencialmente às brincadeiras passou a ser comandado pelas letras e pelos números e pouco a pouco o universo do menino de imaginação fértil foi cedendo espaço ao conhecimento, à aquisição de novos saberes e a um novo mundo repleto de novas curiosidades. Ainda que de uma forma um tanto quanto maçante, essa fase foi essencial para o que viria a seguir, pois sem ela certamente eu não seria a pessoa que sou hoje. Se sou melhor ou não, isso eu não sei, até porque jamais poderei voltar no tempo para viver algo diferente e ver se o resultado seria satisfatório ou não. O que importa é que, mesmo não sendo plenamente satisfeito com o que sou hoje, pude me dar à oportunidade de ser o que sou, com todos os meu defeitos e qualidades. Às vezes penso que as experiências que vivemos é que contam e não o resultado delas.

A vida é um processo filosófico, onde tessituras se entrelaçam numa constante transformação, em que tempo, sensações, experiências, emoções, questionamentos, buscas, incertezas e paixões se entrecruzam e se metamorfoseiam num ciclo contínuo e cadenciado. É algo ao mesmo tempo apaixonante para os que se abrem às oportunidades por ela concedida, e ao mesmo tempo entediante, para os que não acreditam mais na sua beleza, nem no seu poder de sedução. Para esse último caso, o tempo se torna um pesar, um relógio que marca de forma compassada e morosa cada segundo que vivemos, como se os mesmos fossem fardos a serem carregados num ciclo viciante, que só teria fim com o advento das últimas horas por nós vividas. Dizem que viver é uma arte, e concordo em gênero, número e grau, afinal de contas, não é nada fácil viver subjugado a um sistema de governo massacrante, dominado por políticos corruptos e que fazem de tudo para que a vida das pessoas seja mais difícil, por conta dos arrochos salariais, dos altos e infindos impostos, das políticas que favorecem os mais ricos em detrimento da execração aos mais pobres. Junte-se a isso tudo, nossa habilidade em driblar as crises do dia-a-dia tentando equilibrar as contas para esticar o salário, e a nossa genialidade em fazer com que mil e uma ações caibam dentro do espaço de 24 horas e teremos grandes artistas espalhados por todo esse mundo, cada qual vivendo sua própria e única manifestação artística.  E dessa forma a vida vai passando, ou nós é que vamos passando por ela, depende do ponto de vista. E o tempo, tal qual um ditador inescrupuloso vai tomando conta da vida de cada um, acrescentando dias ou diminuindo-os a cada um de nós, transformando o estado natural das coisas, onde cada fase possui sua própria beleza, seja ela na infância, na juventude, na mocidade ou já na vida anciã. E assim vamos nós por essa jornada, sofrendo mudanças aqui, ali e acolá enquanto o tempo passa sem cessar e insta nossas vidas a mudar. Como escreveu certa vez o poeta, filósofo e historiador alemão Friedrich Von Schiller (1759-1805); “de três maneiras passa o tempo: O futuro se aproxima cautelosamente, rápido como uma flexa voa o presente, eternamente imóvel permanece o passado”.

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